
Seminário discutiu a segurança alimentar, desperdício e os caminhos para uma alimentação adequada e acessível
Garantir o direito à alimentação vai muito além de colocar comida no prato. Envolve saúde, acesso a alimentos de qualidade, sustentabilidade e condições para que cada pessoa possa se alimentar de forma adequada. Esses e outros desafios estiveram no centro do 2º Seminário Sesc Mesa Brasil, realizado no dia 7 de agosto, no Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, com a participação de profissionais, pesquisadores e representantes de diferentes setores da sociedade.
Com o tema “Os desafios contemporâneos da segurança alimentar e nutricional”, o encontro promoveu reflexões sobre fome, desigualdade, desperdício de alimentos, mudanças climáticas, produção e acesso à comida, soberania alimentar e garantia de direitos. Ao colocar diferentes perspectivas em diálogo, o seminário reforçou que enfrentar a insegurança alimentar exige olhar para toda a cadeia de produção, distribuição e consumo de alimentos — e também para as desigualdades que determinam quem tem ou não acesso a uma alimentação adequada.
Saúde é comida no prato
A primeira mesa, “Saúde é comida no prato: o direito à alimentação adequada no enfrentamento das desigualdades no Espírito Santo”, partiu de uma ideia central: alimentação é um direito humano e precisa ser tratada também como uma questão de saúde pública e justiça social.
Para a cientista social e gerente de Assistência Social do Sesc-ES, Cintya Schulz, o Programa Sesc Mesa Brasil é uma tecnologia social que conecta diferentes conhecimentos e setores para enfrentar a insegurança alimentar.
““Tecnologia pode e deve ser social. Nós estamos aqui para desenvolver metodologia juntos, de forma sistemática, associando o saber científico, acadêmico, mas também o saber popular, em relação à segurança alimentar, conectando excedentes de produção às populações em situação de vulnerabilidade, contribuindo para reduzir desperdícios, fortalecer redes locais e promover o desenvolvimento sustentável”, frisou Cintya.
Essa atuação envolve uma rede ampla, formada por empresas, produtores, supermercados, indústrias, comunidades, voluntários, poder público e agricultura familiar. O objetivo é conectar excedentes de produção a pessoas em situação de vulnerabilidade, reduzindo o desperdício e fortalecendo as redes locais.
Cintya também chamou atenção para um dos grandes paradoxos do país: o Brasil produz muitos alimentos, mas ainda desperdiça uma quantidade significativa deles.
Somos um país que produz muitos alimentos e desperdiça muito. Desperdiçamos no campo, no transporte e, inclusive, dentro das nossas casas. O Banco de Alimentos é também uma estratégia para prevenir esse tipo de situação”, reforça.
Nesse contexto, o Banco de Alimentos tem um papel importante. Quando um alimento que ainda poderia ser consumido é descartado, não se perde apenas a comida. Também são desperdiçados água, solo, trabalho e todos os recursos envolvidos na sua produção.
A discussão foi ampliada pelo assistente social do Programa Sesc Mesa Brasil Espírito Santo, Eduardo Boarato, mestre e doutorando em Saúde Coletiva pela Ufes, que destacou a importância da participação social na construção de políticas públicas de segurança alimentar e da adesão ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan).
Para Eduardo, o debate também precisa considerar a chamada sindemia global, que reúne problemas como fome, desnutrição, obesidade e mudanças climáticas. Secas, chuvas intensas e outros eventos extremos podem afetar a produção, provocar escassez e aumentar o preço dos alimentos.
“É necessário avançar e pensar criticamente o modo de produzir alimentos na nossa sociedade. Não podemos perder de vista que a alimentação não se resume ao ato de se alimentar. Embora vital, a alimentação é multidimensional e engloba cultura, sustentabilidade, condições de acesso e qualidade. É preciso estarmos sensíveis na compreensão do modus operandi do nosso sistema produtivo. Reafirmando o que a gente discutiu e trabalhou junto: saúde é comida no prato”, pontua.
A fala reforça que, por trás de cada atendimento, existem pessoas, histórias e diferentes situações de vulnerabilidade. O alimento é essencial, mas o cuidado e a escuta também fazem parte desse processo.

Soberania alimentar: quem decide o que chega à nossa mesa?
A segunda mesa, “Soberania Alimentar e Ancestralidade: a garantia dos direitos sociais”, ampliou a discussão para temas como desigualdade social, racismo estrutural, insegurança alimentar e os direitos de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e populações periféricas.
A mestre em Serviço Social e vice-coordenadora do curso de Serviço Social da Emescam, Eliana Moreira, chamou atenção para a importância de olhar para os territórios onde as políticas públicas acontecem de verdade.
Segundo ela, os resultados de uma política não são individuais. Dependem do trabalho conjunto entre profissionais, instituições e comunidades. “Não é um resultado individual, é um resultado coletivo.”
Eliana também lembrou que, quando se olha para uma comunidade, é preciso enxergar além dos números. Uma criança que brinca em um parque, por exemplo, também é uma pessoa que tem direito à alimentação, ao lazer, à educação, à segurança e a uma vida digna.
“A segurança alimentar faz parte desse projeto e desse direito humano fundamental. Temos os instrumentos, os autores e a legislação. Isso precisa estar presente no nosso trabalho. Nós temos compromisso e queremos que a política seja efetivamente realizada. Então, não se sinta invisível diante da grandeza de uma política tão ampla como a segurança alimentar. Sinta-se comprometido, todos os dias, com uma política de qualidade, bem-feita e realizada com regularidade“, reforça.
Para ela, acompanhar indicadores e investimentos públicos é importante, mas não se pode perder de vista o que esses números representam na prática: a vida de pessoas que enfrentam situações de fome e vulnerabilidade.
Agricultura familiar e autonomia
A discussão sobre soberania alimentar ganhou força com a participação de Alessandra Garcia, nutricionista, mestre em Ciências Biológicas e coordenadora do curso de Nutrição da Unisales.
Para ela, enfrentar a desigualdade é fundamental para que as pessoas consigam sair de situações permanentes de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, é preciso considerar os impactos que a crise climática e os conflitos internacionais podem trazer para a produção e o acesso aos alimentos.
Alessandra levantou uma questão central: quem decide o que chega à nossa mesa? A nutricionista chamou atenção para a concentração do mercado de alimentos e de insumos agrícolas e para a influência que grandes empresas podem exercer sobre os sistemas de produção e consumo.
“Quando eu me alimento unicamente de alimentos provenientes de supermercados, eu só posso comprar o que tem. Eu não posso comprar o que não tem”, destaca. Nesse sentido, soberania alimentar significa garantir aos povos o direito de definir suas próprias estratégias de produção e consumo, respeitando seus territórios, culturas e modos de vida.
Uma das principais estratégias apontadas por Alessandra é o fortalecimento da agricultura familiar, além da valorização dos conhecimentos locais, da biodiversidade e das sementes crioulas.
No Espírito Santo, ela destacou a importância da agricultura familiar para o abastecimento da população. Segundo um estudo citado durante a mesa, 85% dos alimentos consumidos no Estado seriam provenientes da agricultura familiar.
“Precisamos aprofundar a temática da soberania alimentar. Do direito dos povos e o poder de definir suas próprias políticas e estabelecer estratégias sustentáveis para a produção e o consumo. No Espírito Santo, a Vigilância Sanitária publicou uma vez um estudo mostrando que 85% dos alimentos consumidos são provenientes da agricultura familiar. Isso é um dado muito importante. Mostra que nós temos condições de alimentar o nosso povo. Precisamos fortalecer essa agricultura, esses agricultores”, frisou.
Um debate que começa no prato, mas vai muito além dele
As duas mesas mostraram que segurança alimentar não pode ser reduzida à existência ou não de comida. A discussão passa pelo combate à desigualdade, pela qualidade dos alimentos, pelo acesso, pela sustentabilidade, pela preservação dos territórios e pela autonomia de quem produz e consome.
Também passa pelo enfrentamento do desperdício. Em 2025, o Sesc Mesa Brasil Espírito Santo esteve presente em 35 municípios, distribuiu mais de 1,9 mil toneladas de alimentos e beneficiou mais de 117 mil pessoas, mostrando na prática como a articulação entre diferentes setores pode transformar excedentes em alimento e fortalecer a rede de proteção social.
Cultura que também alimenta

A programação do seminário também contou com um momento de integração e celebração por meio da música. Os participantes acompanharam a apresentação do Coral Infantojuvenil do projeto Música & Artes na Capital/Vitória, formado por crianças, adolescentes e jovens que participam das atividades de formação musical do projeto.
O grupo apresentou um repertório preparado especialmente para o encontro, levando ao palco o resultado de um trabalho que alia educação, convivência e desenvolvimento artístico. A apresentação também reforçou a importância da arte e da cultura como ferramentas de formação, inclusão e transformação social — princípios que dialogam diretamente com a atuação do Sesc Mesa Brasil.
O projeto Música & Artes na Capital/Vitória oferece oficinas e atividades de formação musical para crianças, adolescentes e jovens de 5 a 29 anos, prioritariamente da rede pública capixaba. As ações incluem práticas de canto e instrumentos musicais, formação de corais, grupos de prática em conjunto e apresentações, criando oportunidades de acesso à cultura e ao desenvolvimento de novas habilidades.
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