Sesc Espiríto Santo

Lideranças Femininas do Sesc-ES: Conheça a Trajetória de Angela Lagreca

Angela Lagreca, Engenheira e Assessora na Diretoria de Infraestrutura e Operações do Sesc-ES

A assessora de Infraestrutura e Obras do Sesc-ES construiu uma carreira na engenharia, lidou com pausas, reinventou-se no empreendedorismo e hoje contribui para o processo de modernização da instituição, liderando o projeto da nova sede do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac

 

A engenharia sempre fez parte da vida de Angela Lagreca. Filha de engenheiro eletricista, cresceu acompanhando de perto o cotidiano da construção civil e iniciou sua trajetória profissional na empresa da família, onde trabalhou por mais de uma década ao lado do pai e dos irmãos. Formada em Arquitetura com especialização em Engenharia Civil, e diversas especializações em engenharia, construiu uma base técnica sólida em um setor historicamente marcado pela presença masculina. Atualmente, ela lidera o projeto de construção da nova sede do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, em Vitória.

Depois de anos dedicados à carreira, Angela decidiu fazer uma pausa para acompanhar de perto a adolescência do filho. O retorno ao mercado, porém, trouxe novos desafios — entre eles, as barreiras ainda enfrentadas por mulheres acima dos 40 anos. Foi nesse momento que decidiu empreender, criando sua própria empresa e ampliando sua formação em áreas como gestão de projetos, segurança do trabalho, combate a incêndio e até psicanálise, buscando compreender melhor as relações humanas presentes no ambiente profissional.

Em 2025, aceitou um novo desafio: mudar de São Paulo para o Espírito Santo para integrar a equipe do Sesc-ES. Como assessora de Infraestrutura e Obras na Diretoria de Infraestrutura e Operações (Diop), passou a atuar na fiscalização e na gestão de projetos que fazem parte do processo de modernização e expansão da instituição.

Aos 54 anos, Angela olha para a própria trajetória com a certeza de que cada etapa percorrida — da empresa familiar ao empreendedorismo e da maternidade à liderança — contribuiu para moldar sua forma de atuar: com rigor técnico, sensibilidade na gestão de pessoas e o compromisso de deixar um legado nas obras que ajudam a fortalecer a atuação social do Sesc.

Confira a entrevista na íntegra.

Angela, você construiu uma trajetória sólida como arquiteta e engenheira, deixou o emprego formal para se dedicar à família e empreender, e depois retornou ao mercado da construção civil até chegar ao Sesc-ES, em 2025. Como foi viver essas diferentes fases da carreira e o que esse percurso revelou sobre você como profissional e como mulher?

Bom, viver todas essas mudanças foi muito desafiador. Sempre acreditei que precisava desempenhar esses papéis com muita excelência. Por isso, procurei me dedicar a cada fase da minha vida com muito amor, carinho e dedicação: primeiro como arquiteta, depois como mãe e, agora, como engenheira.

Quando decidi deixar o emprego formal para me dedicar à minha família e, depois, empreender, vivi uma experiência muito agregadora. Empreender exige segurança, exige uma dose extra de confiança. E acredito que essa experiência me trouxe o embasamento necessário para que eu pudesse assumir uma posição de liderança, gerir uma equipe e trabalhar assessorando um diretor. Tudo isso me deu a confiança para estar aqui hoje.

Eu vim para o Espírito Santo logo após um divórcio, depois de um casamento de 30 anos. Hoje moro sozinha, longe do meu filho e da minha mãe. Todos os dias é um grande desafio estar aqui, mas também tem sido uma experiência muito enriquecedora.

Então, essa trajetória nunca foi linear, mas eu sempre procurei honrar os meus valores. E isso é o mais bacana quando olho para trás: perceber que hoje estou exatamente onde um dia desejei estar. Isso é muito gratificante.

Na construção civil, onde a presença feminina segue avançando, quais foram os principais desafios que você enfrentou para consolidar seu espaço, como autoridade profissional? Que aprendizados foram determinantes para fortalecer sua postura e sua confiança ao longo dos anos?

A presença feminina na construção civil ainda é muito desafiadora, porque é um mercado predominantemente masculino. A gente precisa ter muita firmeza e, ao mesmo tempo, muita sensibilidade para ocupar esse espaço. Ao longo da minha trajetória, aprendi justamente a ser firme, mas com delicadeza.

No início da carreira, existe sempre aquela percepção de que você é nova no mercado e ainda não sabe o suficiente. Muitas vezes eu estava em um canteiro de obras cercada por muitos homens, ou em reuniões técnicas com equipes majoritariamente masculinas. Nessas situações, como mulher, você acaba sendo questionada ou até mesmo invalidada. Com o tempo, precisei aprender a me posicionar e a me impor.

Quando somos jovens, às vezes temos uma postura mais rígida ou até um pouco arrogante. Hoje, aprendi a ter uma postura muito mais tranquila, que me permite afirmar a minha presença e demonstrar tudo aquilo que aprendi ao longo dos anos.

Algo que foi fundamental na minha trajetória foi nunca ter parado de estudar. Sempre busquei conhecimento, não apenas o técnico, mas também o humano. Na construção civil lidamos com muitas pessoas, então é essencial desenvolver esse olhar mais humano.

A engenharia não se resume a papéis, planilhas, relatórios ou projetos. Ela vai muito além disso, pois envolve uma dimensão humana muito forte. Afinal, projetamos espaços que serão utilizados por pessoas, e todo o trabalho depende da atuação e do engajamento das equipes que tornam esses projetos realidade.

Infraestrutura exige visão de longo prazo, gestão de riscos e de recursos, compromisso com prazos, entre outras responsabilidades. Como você equilibra a necessidade do rigor técnico para a execução do trabalho com a liderança para engajar equipes e garantir a entrega de resultados na condução das obras sob sua responsabilidade?

Infraestrutura, para mim, é uma gestão responsável do futuro. Na engenharia, quando falamos em infraestrutura, estamos nos referindo à fundação, a tudo aquilo que está abaixo do solo. É a base de qualquer instituição. Se essa base for sólida e bem construída, a tendência é que a instituição cresça de forma consistente. E é exatamente isso que fazemos. A Diretoria de Infraestrutura e Operações (Diop) faz a gestão de todas as obras do Sesc e atua praticamente como uma construtora interna, atendendo diferentes áreas da instituição, como cultura, hospitalidade, educação, assistência e saúde.

Hoje, o papel do departamento de infraestrutura é garantir que esses espaços ofereçam qualidade e boas condições de uso. Isso significa entregar uma escola com conforto e estrutura adequada para o ensino; um palco preparado para receber a cultura; uma suíte de hotel modernizada; espaços de atendimento à saúde mais confortáveis e humanizados. Essa é a nossa vertente, com uma engenharia humanizada.

Buscamos fazer uma engenharia que aproxima as pessoas, que motiva os colaboradores e faz com que todos se sintam parte do processo e vistam a camisa do departamento.

Essa prática humanizada também orienta a minha atuação no canteiro de obras. Ao mesmo tempo em que imponho respeito pela minha posição, procuro trazer um pouco de sensibilidade para o relacionamento com a equipe, para aproximar os colaboradores e criar um ambiente de confiança.

Hoje, como assessora de Infraestrutura e Obras do Sesc-ES, você atua em diversos projetos para a instituição. Como define o seu papel nesse momento de modernização e expansão das unidades da Instituição?

Para mim, é uma honra saber que parte desse trabalho vai se tornar patrimônio. O prédio da nova sede, por exemplo, mesmo que eu não esteja aqui no futuro, sei que fiz parte desse projeto, liderei e contribuí para que ele se tornasse realidade.

Aprendi com minha mãe a sempre buscar mais e fazer o meu melhor. Eu não queria participar apenas do projeto da nova sede; queria fazer parte desse novo Sesc que eu estava vendo surgir diante de mim.

Nesse processo, surgiu a estruturação do escritório de projetos (PMO) do departamento e também a necessidade de apoiar a área de meio ambiente. Perguntei ao diretor se poderia assumir esse apoio e ele concordou. Então, somei essas áreas à minha atuação.

Tenho acompanhado de perto várias iniciativas importantes, como a implantação do galpão do Sesc Mesa Brasil na Ceasa, o avanço das obras da nova sede, a modernização da infraestrutura das unidades e dos serviços, entre outros projetos.

Percebo que esse novo Sesc está se consolidando com uma governança muito sólida. Hoje, a instituição está mais estruturada do que quando eu cheguei e poder participar desse momento de transformação é algo muito significativo para mim.

Obras vão muito além da estrutura física: elas viabilizam serviços, acolhem pessoas e ampliam o alcance institucional. Na sua visão, como a infraestrutura contribui para fortalecer a missão social do Sesc-ES e gerar impacto real na vida dos trabalhadores do comércio e de suas famílias?

A infraestrutura se materializa nas entregas que conseguimos realizar. É por meio dela que os projetos do Sesc ganham forma e passam a atender as pessoas. Por exemplo, no programa Cultura, é o que garante a estrutura de palco para que as atividades aconteçam. Nos hotéis, como os de Guarapari, Domingos Martins e Praia Formosa, os visitantes contam com espaços de lazer, conforto e segurança graças à estrutura que é planejada e executada pela engenharia.

A engenharia está presente em praticamente todas as iniciativas do Sesc, dando suporte para que os projetos saiam do papel e se tornem realidade. De certa forma, contribuímos para criar a base que sustenta os serviços oferecidos aos trabalhadores do comércio e às suas famílias. É a partir dessa estrutura que a instituição consegue crescer e ampliar seu impacto na sociedade.

Mas a infraestrutura vai além do papel, do concreto e do aço. Existe também uma responsabilidade social muito grande, inclusive em relação à preservação do meio ambiente. Estamos planejando ações e treinamentos de sustentabilidade nas escolas e nas unidades do Sesc, mostrando como trabalhamos essas questões dentro do programa de meio ambiente.

Nosso trabalho não se limita à obra em si. Estamos falando de várias pessoas empregadas, de impacto na paisagem urbana, do cumprimento de metas institucionais e, principalmente, de criar espaços melhores para as pessoas.

Que mensagem você deixaria para outras mulheres que desejam ocupar espaços estratégicos e de decisão?

A mensagem mais importante que eu deixaria é: prepare-se tecnicamente para assumir o papel que você merece ocupar. Estude, se especialize e busque sempre se desenvolver.

Ao mesmo tempo, seja você mesma. Não perca a sua essência nem os seus valores. E, acima de tudo, procure manter o equilíbrio entre a firmeza e a sensibilidade. Meu pai costumava dizer que precisamos ser como o bambu: enverga, mas não quebra… Mesmo quando o mundo nos desafia, é importante seguir em frente.

Também é importante lembrar que podemos nos permitir sentir. Se alguém nos ofender ou nos magoar, podemos chorar. Não há demérito nenhum em demonstrar fragilidade em alguns momentos. O importante é seguir em frente, com dignidade e firmeza em nossos valores.