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Lideranças Femininas do Sesc-ES: Conheça a Trajetória de Cintya Schulz

Cintya Schulz,Gerente de Assistência Social do Sesc-ES. Foto: Sesc-ES.

Cintya Schulz,Gerente de Assistência Social do Sesc-ES. Foto: Sesc-ES.

Quem prepara as mulheres para a Liderança? A Gerente de Assistência Social do Sesc-ES, Cintya Schulz, fala sobre as oportunidades de aprendizado que teve ao longo da carreira

Socióloga, com 23 anos de experiência no setor público nas áreas de Segurança Pública, Educação, Direitos Humanos e Assistência Social, Cintya Schulz está sempre disposta a aprender.

Quando jovem, aos 17 anos, foi uma das primeiras mulheres da família a cursarem o ensino superior, na Ufes, onde se formou em Ciências Sociais. Mais tarde, na Secretaria de Segurança Pública do Estado, aprendeu com os indicadores sociais. Depois, aplicou essa expertise na Secretaria de Direitos Humanos, captando recursos para os Centros de Referência da Juventude (CRJs).

Viveu a maternidade e teve seu filho, Rafa, em uma experiência que a ensinou sobre gestão de tempo e priorização. Esteve no Governo do Estado em São Paulo, durante dois anos, e chegou ao Sesc, em 2025, para assumir a Gerência de Assistência Social na Diretoria de Programas Sociais (DPS), liderando, inclusive, o time do Sesc Mesa Brasil, responsável por complementar a alimentação de milhares de capixabas.

Todas essas vivências conectaram as diversas versões da Cintya – mulher, filha, mãe, profissional – e contribuíram para a sua trajetória, que continua evoluindo no Sesc-ES. Atualmente, ela participa de uma qualificação no Centro de Pesquisa e Formação Sesc 14 Bis, em São Paulo.  A partir desses aprendizados e, com o incentivo do Diretor de Programas Sociais, Romulo Gomes, surgiu a ideia do Núcleo Sesc de Formação em Pautas Sociais, novo projeto da Diretoria para 2026.

Como líder, ela ressalta a importância de ampliar a preparação de mulheres para que ocupem, cada vez mais, espaços de liderança, ao mesmo tempo em que chama atenção para o trabalho ainda invisibilizado relacionado aos cuidados domésticos e familiares. E ainda deixa uma mensagem:  invista na carreira, busque apoio em outras mulheres e conecte-se com pessoas que impulsionem sua trajetória.

Confira a entrevista na íntegra:

Como socióloga e mulher que ocupou cargos de gestão, quais foram os maiores desafios que você enfrentou?

Quando a gente fala do trabalhador do comércio de bens e serviços, não estamos falando de uma maioria de homens, mas sim de uma maioria de mulheres. Estamos falando de uma maioria de mulheres negras – pretas ou pardas – em uma sociedade que está envelhecendo.

Eu já estive em ambientes de trabalho muito femininos, e neles, há sempre a tendência de não se perceber o valor disso, como nas escolas, onde mulheres são a maioria na docência e homens a maioria na gestão. Nesses espaços, eu já estive em posições de não ser ouvida, de não ter a opinião validada ou de precisar de uma validação masculina.

As mulheres acessaram muito mais a universidade e, às vezes, ainda existe o argumento de que não estamos preparadas. Mas quem nos prepara para sermos líderes? É fundamental que quem está na liderança consiga formar novas lideranças. Muitas vezes, as mulheres não ocupam esses espaços porque não se veem neles, eu mesma tive poucas chefes mulheres. Eu diria que, hoje, ainda temos poucas meninas sonhando em ser prefeitas, vereadoras ou deputadas, porque esse é um espaço onde, geralmente, elas não estão.

Nesse sentido, estar à frente de uma gerência com tantas mulheres é muito poderoso, mesmo que não seja uma necessidade da área. Acho que também há uma questão que vai além do trabalho. Quem é liderada por mim, assim como eu, tem outros desafios: enquanto mulher e em relação ao trabalho invisível, algo que nem sempre é falado. O cuidado geralmente está associado às mulheres, seja quando elas precisam levar o filho ao médico ou ao realizar as tarefas domésticas, atividades que tiram da mulher um tempo em que elas poderiam estar estudando, descansando e, inclusive, se preparando para ocupar determinados espaços onde elas gostariam de estar.

Cintya, sua formação é em Ciências Sociais e você soma 23 anos de experiência no setor público, passando por áreas como Segurança e Direitos Humanos. Como essa bagagem moldou a gestora que você é hoje no Sesc-ES?

Eu sempre tive a oportunidade de trabalhar com temas de que eu gostasse e que, ao mesmo tempo, fossem complexos. Eu costumo dizer que as temáticas com as quais tive a oportunidade de trabalhar desde a universidade federal foram muito importantes. Ainda na universidade, tive contato com a educação pública; depois vou para a Secretaria de Segurança Pública do Estado e começo a trabalhar com indicadores sociais, em um momento em que o Estado vivia uma crise em relação aos casos de homicídios. Então, trabalhei por muitos anos em programas de redução desses índices.

Na sequência, participei de uma pesquisa sobre os perfis dos jovens que mais morriam, na Fundação Jones dos Santos Neves. Após isso, fui para a Secretaria de Direitos Humanos, onde participei de projetos muito legais de captação de recursos para jovens, os CRJs. Depois disso, começo a me aproximar mais da assistência social no Governo do Estado, onde coordenei o NAJ (Núcleo de Gestão e Avaliação de Informação), produzindo dados sobre a assistência para que as pessoas entendessem o que é a área.

Por muito tempo da minha vida, não quis ser mãe. E, quando quis, engravidei e tive o Rafa. Ser mãe do Rafa mudou muito a minha vida profissional. Passei a priorizar melhor as coisas. Você precisa saber gerir o tempo, ter prioridades, e para mim fez muito sentido.

Depois, vou para o Governo do Estado em São Paulo por quase dois anos, liderando o projeto Escola Mais Segura e o projeto Conviva São Paulo. Tenho especialização em Segurança Pública e Políticas Sociais para melhorar a segurança e a convivência. E a convivência também faz parte da Assistência Social. A gente sabe que quando as pessoas convivem e criam vínculos, elas estão mais protegidas.

Depois disso, volto para o Espírito Santo, trabalho com os atingidos pela barragem de Fundão por quatro meses e, em seguida, assumo a Secretaria de Assistência Social na Prefeitura de Vitória. Foi o maior desafio da minha vida: liderar mais de 1.200 pessoas durante quatro anos, além de trabalhar com a proteção social básica — que é aquela que vai prevenir que o indivíduo fique ainda mais vulnerável — e aquela que atua quando já houve violação de direitos. São 24 abrigos na Prefeitura de Vitória. Foi aí que aprendi ainda mais sobre assistência social, tanto no fomento quanto na execução.

Após isso, faço um processo seletivo para assumir a Gerência de Assistência Social no Sesc e venho me dedicando desde então.

Com sua experiência em políticas públicas, como você trabalha a Assistência Social de forma transversal dentro do Sesc-ES? Como garantir que ela dialogue com o esporte, a educação, a cultura e o lazer, criando uma rede de proteção e desenvolvimento que realmente transforme a vida do trabalhador?

A assistência, muitas vezes, é o meio. Mas, como toda área de atuação, ela é incompleta; nenhuma área é completa por si só. A assistência trabalha com a convivência, mas as outras áreas também trabalham: o esporte, o lazer, o turismo social, a educação e a cultura. Temos um radar estratégico e cada um constrói o seu por área, mas se cada um construir seu radar dialogando com o outro, o radar estratégico do Sesc como um todo também é fortalecido, porque, no final, estamos gerando impacto social.

Quando falamos da segurança alimentar e nutricional, e falando sobre o Mesa — o projeto mais consolidado do programa Assistência em nível Brasil —, temos uma rede de relacionamentos incrível: são mais de 80 doadores e mais de 206 organizações da sociedade civil que preparam e servem o alimento do Mesa Brasil.

Então, mesmo onde o Sesc Mesa Brasil não tem sede, ele está lá complementando a refeição dessas pessoas. Exemplo disso é o que fazemos aqui no estado. Só no ano passado, distribuímos mais de 1,8 milhão de quilos de alimentos, ampliando o alcance do programa para 35 municípios capixabas, beneficiando mais de 200 instituições sociais e mais de 60 mil de pessoas de forma sistemática ao longo do ano. Considero isso muito poderoso para uma instituição que quer gerar impacto social.

Você mencionou que está em um processo de “aprendizagem contínua” e que até começou a aprender a nadar em uma unidade do Sesc. O que esse interesse por aprender diz sobre quem é a Cintya fora do crachá?

Acho que a palavra aprendizado está sempre presente na minha vida. Eu não me acho sênior o suficiente para não perguntar ou para não achar que a realidade muda. Sou o tipo de pessoa que acredita que todo mundo tem que estar disposto a aprender. Tudo o que vivi, pessoal ou profissionalmente, fez com que a Cintya fosse essa pessoa que sou hoje, porque, no final do dia, já não sou mais a mesma.

O fato de eu ter sido assessora por muito tempo faz com que eu esteja sempre prestando apoio. Então, também tenho esse papel como gerente: o de apoiar a Diretoria de Programas Sociais. Outra coisa que aprendi muito antes do Sesc foi sobre a importância da comunicação e sobre como o nosso público precisa ter clareza sobre o que é a Assistência do Sesc-ES.

Eu gosto de aprender e tive boas oportunidades. Sou de uma família onde a mulher não tinha esse lugar do estudo e da independência. Era muito comum que as meninas da minha turma parassem de estudar para cuidar da casa e da família.

Fui uma das primeiras pessoas a ter ensino superior. Meus pais, até por não terem conseguido estudar, sempre me incentivaram. Eles queriam que eu passasse em uma universidade pública, mas nunca houve pressão por uma profissão específica, como Direito ou Medicina. Escolhi Ciências Sociais pelo que eu lia e acreditava. Vim com 17 anos morar na capital, estudei, fiz pós-graduação e MBA; sempre foram oportunidades.

Logo que cheguei ao Sesc, o diretor Romulo me ofereceu a oportunidade de fazer um curso de formação no Centro de Pesquisa e Formação Sesc 14 Bis, em São Paulo. Lá, pude aprender com outras pessoas, visitar outras unidades e pensar em uma proposta para o Programa Assistência: o Núcleo Sesc de Formação em Pautas Sociais. Falo com o Romulo que esse é o maior presente: a oportunidade de aprender. E a Cintya fora do trabalho também acredita muito nisso.

Você disse que se sente muito conectada ao propósito do Sesc-ES. De que forma você se identifica com a missão de promover o bem-estar dos trabalhadores do comércio? O que faz o Sesc ser “único” nesse impacto?

Acho que o grande potencial do Sesc é poder reunir todas as áreas finalísticas, com muitas interfaces, em uma única instituição. O que também me chama a atenção é o fato de ser feito para o trabalhador. Estar em uma instituição que precisa atender e priorizar quem trabalha — e que é trabalhadora na maior parte dos casos — e sua família, para mim, faz total sentido. Ao mesmo tempo, o Sesc Espírito Santo é essa mão estendida para quem não é trabalhador do comércio, através de ações como o Sesc Mesa Brasil, a maior rede privada de bancos de alimentos do país.

Que mensagem você deixaria para outras mulheres que desejam ocupar espaços estratégicos e de decisão?

Eu diria para se aproximarem de pessoas que possam contribuir com a sua trajetória. Eu recebi muito apoio de pessoas que procurei, mas para isso é preciso falar sobre as suas intenções e estar disposta a aprender e a se posicionar. E não deixem de cuidar de quem vocês são fora do trabalho. Acho que as mulheres têm que cuidar das suas carreiras, se essa for a vontade delas, e buscar apoio umas nas outras. Mas também devem buscar homens que sejam aliados nessa busca por equidade.